Peço desculpa pelo tamanho do post, mas as palavras, por vezes, não chegam para expressar os nossos pensamentos e opiniões.
Ao aproximar-se o dia em que Portugal relembra a Revolução que ditou o fim do Estado Novo, tempos de isolamento cultural, de censura à liberdade de expressão, de profundo atraso económico e opressão social…, senti necessidade de escrever este post, após ver, no passado domingo, a série da RTP1 – Conta-me como foi, cuja história e enredo retratam esse passado recente.

Apesar de não acompanhar a série, enquanto fazia zapping ao meu televisor, o início do episódio de domingo despertou em mim particular interesse, e porquê? Porque nesse episódio a família central da série encontrava-se de viagem desde Lisboa até à aldeia dos seus familiares. O que achei particularmente engraçado, foi a excelente encenação que fizeram quando os filhos da família central da novela, uma criança e dois adolescentes, chegaram à aldeia, ficando estupefactos pela diferença entre os modelos de vivência da capital, na qual viviam e, da aldeia que até então nunca tinham conhecido e com a qual tinham acabado de estabelecer contacto.
Pode parecer estranho para os jovens da minha geração e das que se seguiram, mas, há 40 anos muitas aldeias não tinham electricidade, as suas casas eram iluminadas a candeias de azeite ou petróleo; não haviam casas-de-banho propriamente ditas nem água quente para tomar um simples duche; os alimentos eram cozinhados no pote à lareira, ou no forno a lenha; as mulheres lavavam a roupa à mão nos ribeiros e nos tanques de granito; algumas crianças mal sabiam ler e escrever brincando com paus e pedras; ir à missa era obrigatório; os jovens trabalhavam na lavoura depois de concluírem o ensino básico (4ª classe), ou mesmo, nunca estudando, ficando analfabetos toda a vida; outros, davam o “salto” para França (emigravam) ou “fugiam” para as cidades em busca de melhores condições de vida, e outros, ainda, obrigados pelo regime, tinham de cumprir serviço militar sujeitando-se à Guerra Colonial em terras de ultra-mar.
Passados alguns dias (minutos na série), os três filhos da família depressa se habituaram à falta de conforto da aldeia dos seus avós, entregando-se de corpo e alma à alegria e à felicidade da vida rural, ao cheiro a estrume, à retrete, à ausência de ruído e à sachola…
Foi mais ou menos este retrato que o episódio de Conta-me como foi ofereceu aos telespectadores.

O que me despertou o bichinho da escrita, foi o facto de hoje em dia, ainda se observar, embora forma mais amenizada, este tipo de contrastes e situações. Quero com isto dizer, que, apesar dos meios de comunicação permitirem uma maior proximidade entre o rural e o urbano, muitos contraste se têm mantido quase inalterados. Bom e mau, quando analisadas várias perspectivas. Se por um lado esta ruralidade permite manter uma identidade do passado genuinamente portuguesa, com o seu marco histórico de um regime fascista e do seu atraso civilizacional, o que é bom para relembrar o atroz legado salazarista, por outro, o tempo parece ter parado no que diz respeito aos modelos de vida, ao isolamento cultural, aos baixos índices económicos e educacionais, que muito frequentemente se tornam focos de pobreza e de problemas sociais graves. Muitas destas aldeias, já com poucos habitantes e essencialmente na faixa etária da 3ª idade, embora estabelecendo breves e pontuais contactos com o mundo urbano, mais modernizado, têm uma incapacidade, por si só, de evoluir para melhores condições de vida mantendo essa mesma identidade. Esta incapacidade em muito se deve à própria “preguiça” de adaptação aos novos tempos por parte dos aldeãos, e principalmente, às políticas despreocupadas do nosso País, no que diz respeito ao investimento educacional e sócio-económico que deveriam ter sido dadas a estas pessoas. A mescla entre o rural e o urbano pode ser o fim desta identidade genuína, porque quem habita estas aldeias, contactando frequentemente com os meios citadinos, depressa se rende aos vícios urbanos e, tão depressa as “destrói” nos seus costumes, tradições e estética arquitectónica, como as abandona sem olhar para trás. Faltou e falta essencialmente um suporte educacional forte para que esta mescla seja harmoniosa e rentável, para que as aldeias perdurem no tempo, para que os seus habitantes possam alcançar melhores condições de vida mantendo os seus usos e costumes e reciclando ou adaptando os mesmos aos novos tempos.
O mundo rural tem imensas potencialidades por explorar. O nosso País tem capacidade (tanto na oferta turística como gastronómica e de produtos tradicionais) caso houvessem e hajam outro tipo de políticas, menos centralistas, mais direccionadas para a educação e para o desenvolvimento sócio-económico, assim como, uma maior abertura e vontade para a mudança por parte de quem as habita.
Várias medidas podem ser tomadas: a mais importante seria acabar com o analfabetismo (não apenas no sentido literal da palavra, mas também no sentido da ignorância), embora reconheça que seja impossível a curto prazo, a médio e a longo prazo é uma aposta possível e altamente rentável. O País político e social terá de procurar as condições para reabitar o mundo rural, até porque, hoje em dia, com automóveis e estradas alcatroadas em quase todos os cantos, viver na aldeia não é estar isolado, mas antes, viver com qualidade e em harmonia com a natureza. Actualmente, os aldeãos necessitam de orientação e de uma voz de comando que os encaminhe. As autarquias e aqueles com capacidade empreendedora (que em tempo de crise são poucos), são quem tem poder de impulsionar esta reabilitação urgente, através de suporte logístico e de investimento. O reforço do sentido comunitário dentro da própria aldeia (que sempre existiu neste meios por força dos laços de vizinhança e de interdependência), na tentativa de construção de um tecido produtivo seria, na minha óptica, uma excelente aposta. A agricultura biológica, a produção animal, a produção de têxteis e tapeçarias, a oferta dos rituais festivos e de romaria, a oferta gastronómica regional, de albergue e turismo rural, assim como, publicitação pelas entidades competentes…, são exemplos daquilo que poderia ser desenvolvido em parceria pelos aldeãos, autarquias, empreendedores e promotores turísticos. Há dias,
no Pensar Basto, o
Carlos Leite abordou também esta temática e uma hipótese não descartável, a de integrar algumas habitações numa rede de apoio social aos idosos doentes e/ou dependentes nas suas necessidades humanas e actividades de vida diária. Contudo, é primordial contribuir de forma melhorar as condições habitacionais, tanto para o conforto, como para recuperar um pouco da confiança perdida pelos seus residentes, que durante anos a fio caíram no esquecimento de alguns e, na “armadilha” exploratória do “Chico-espertismo” de outros, em consequência do capitalismo neo-liberal e do seu individualismo inerente. Porém, há que melhorar com bom senso, com sentido estético e de preservação patrimonial, cumprindo as leis de urbanismo e ordenamento territorial. Será importante melhorar não só no interior e exterior das habitações, mas também, os arruamentos e infra-estruturas básicas (rede eléctrica, água, saneamento básico, etc), porque, se há dinheiro para construir bairros sociais na urbe para pessoas socialmente desfavorecidas, e para pessoas que definitivamente só são socialmente desfavorecidas porque se viciaram nas irresponsáveis políticas sociais do nosso país, também há-de haver dinheiro para estas pobres pessoas, cujo tempo não lhes propiciou igualdade de oportunidades nem lhes ensinou outro modo de vida que não o "do suor da enxada" para a sua subsistência, esperando a morte num silêncio entristecido.
Em Portugal, há bons exemplos relativamente a esta matéria. Que haja vontade para segui-los e, se possível, fazer ainda melhor.