24 janeiro 2010

Um Portugal desmotivante

Não tenho por hábito abordar esta temática porque sou suspeito, e porque compreendo que estamos numa altura de crise financeiro-económica na qual deve haver um esforço conjunto da sociedade na contenção de despesas. Porém, a situação é de tal forma humilhante e ultajante que me é impossivel ficar calado perante tal afronta. O Ministério da Saúde na sua mais recente contra-proposta negocial com a classe profissional de enfermagem, quebrou vários pré-acordos estabelecidos, e como se não bastasse, propõe uma redução salarial. Sim, leram bem, uma redução salarial para uma profissão de risco, altamente desgastante, e cujas competências são de elevada responsabilidade, a qual não vê reconhecida carreira alguma há quase uma década, sendo a única classe profissional de licenciados a prestar serviços ao Estado, cujos salários são equiparáveis aos de bacharelato. Esta situação tem-se arrastado ao longo desta década num vai e vem negocial entre os sindicatos, a Ordem e o Ministério da Saúde. É caso para perguntar, Estarão os representantes do Governo e do Ministério da Saúde na sua perfeita sanidade mental?!?!?! Quem tem de pagar a crise são aqueles que já de si estão desfavorecidos e injustiçados?!?!?!

O governo Sócrates já nos tem habituado a estas paródias, primeiro foi a classe dos professores humilhada até às últimas consequências, agora, são os enfermeiros as próximas vítimas. Quem serão os próximos?
Mas até nisto os governantes são "chicos-espertos", porque escolheram uma altura perfeita para apresentar a sua proposta de maneira a que passasse o mais despercebida possível, onde as atenções estão focadas na negociação do Orçamento de Estado e na tragédia do Haiti.

Por estas razões, os enfermeiros estarão em greve a 27, 28 e 29 de Janeiro. Só que haverá uma grande diferença comparativamente a outras greves, nós nunca conseguiremos juntar 100000 enfermeiros em protesto na avenida da liberdade, porque para além de uma grande percentagem trabalhar por turnos, acima de tudo temos bom senso, e, sabemos que não podemos abandonar por completo os locais de trabalho, tendo forçosamente de assegurar serviços mínimos para garantir a dignidade e a sobrevivência dos utentes, que não têm que pagar por esta afronta, e nada têm que ver com esta luta.

Apenas gostaria que a comunicação social e os partidos da oposição olhassem para os enfermeiros como olharam para os professores, porque tenho a noção que uma grande percentagem da opinião pública tem a errada convicção de que os enfermeiros são bem remunerados. E porque hoje estamos aqui saudáveis e amanhã podemos estar doentes, talvez um dia as pessoas compreendam a importância transversal que esta classe profissioanal tem no sistema de saúde. Por que, quem trabalha na área da saúde e quem tem conhecimento da realidade, sabe que sem enfermeiros o sistema de saúde pura e simplesmente pára.

Chegou a hora de dizer - BASTA DE GOZAREM COM A NOSSA CARA!

4 comentários:

  1. Caro Abel, partilho a tua discórdia.

    Há factos realmente "maquiavélicos". Tendo um certo grau de formação (licenciatura) e sendo funcionários públicos (SNS), acho que é uma injustiça que o nível remuneratório da classe dos enfermeiros não seja o mesmo que aplicado a outros funcionários públicos e com o mesmo nível formativo.
    Claro, que o corte salarial vem agravar esta situação, e isto é apenas um aspecto de entre outros.

    A dignidade de quem trabalha é posta em causa por estas medidas, é preciso vincar a vossa posição.

    Só posso estar solidário com esta luta.

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  2. Caro Marco, agradeço a tua solidariedade.
    De facto isto está a ultrapassar todos os limites do que é razoável, num Estado democrático que deve zelar pela justiça social. Não farei greve, porque por casualidade de horário, estarei de folga nos 3 dias, mas, obviamente que faria se estivesse escalado para trabalhar.

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  3. Como é óbvio,não podia estar mais de acordo contigo.

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