Sou um desconhecedor da obra literária de José Saramago, não por incuriosidade pois já folheei alguns dos seus livros, mas antes porque a minha vida me levou a procurar outro tipo de literatura e outro tipo de leituras. Mas ainda vou muito a tempo, penso eu. Por isto não tenho nem posso fazer grandes juízos sobre a escrita de um Nóbel da Literatura, mas posso apreciar a sua personalidade e postura enquanto tal.
Já dizia o ditado que - "Santos da terra não fazem milagres". Por isso é que Dan Brown´s vendem tanto e são tão famosos no nosso Portugal, com um teor de escrita igualmente crítico com a religião quando comparados com Saramago. São as modas e as modinhas dos floreados e romances. Valem mais os que dão uns toques na bola e que nada produzem de concreto, do que aqueles que escrevem sobre a vida e o mundo e nos dão conhecer outras formas de pensar, abrindo horizontes. É este um Portugal que ignora a capacidade da língua portuguesa e, a riqueza da sua obra literária e dos seus escritores.
Saramago foi um crítico inconformista e são os inconformistas que fazem o mundo evoluir, aqueles que quebram os paradigmas, aqueles que contrariam a norma com a qual as maiorias concordam, aqueles que têm as suas convicções devidamente argumentadas e as defendem. Quase todos incompreendidos nas suas épocas como reza a história de: Jesus Cristo, Galileu, Mozart, Darwin, etc... Saramago tinha esse génio, o de uma personalidade bem marcada, de ideais e convicções inabaláveis, dotado de uma postura por vezes arrogante por que era vítima da própria arrogância daqueles que sempre acham que são os supra-sumos da inteligência e sabedoria, num país pouco habituado à auto-crítica e à dureza e crueza da verdade, e às vozes que contradigam os grandes senhores do poder instituído.
José Saramago, na apresentação da sua mais recente obra literária, verbalizou um conjunto de críticas à Bíblia, à Igreja e à religião. Certamente, estas afirmações não podem ser nomeadas como um "golpe publicitário". Nomear como causa principal, do polémico impulso verbal de Saramago, a "necessidade" de publicidade, é uma análise imediatista e descentralizada. Ele não necessita. É o único escritor de língua portuguesa que foi laureado com um Nobel da Literatura, uma evidência que, por si só, garante um inequívoco estímulo publicitário a qualquer obra que escreva e que queira publicar. No entanto, podemos, numa base hipotética, sustentar que a causa é mais profunda e humana. Poderíamos afirmar que a sua vida, o seu ateísmo, a sua personalidade, o seu intelecto e as vicissitudes da sua doença, e do respectivo tratamento, são factores importantíssimos para um possível fundamento para as suas palavras. Como um pensador é a sua vida e a sua personalidade que determinam, principalmente, a visão que tem sobre o universo e isto é-nos transmitido através das suas palavras e escritos. É, como disse Anselmo Borges, a visão unilateral de Saramago sobre a obra bíblica e suas dependências.
Sobre as palavras que proferiu, são, apenas, as palavras dele. Confesso, que bebo alguns dos seus impulsos verbais. Contudo, para quem "agnosticamente" vê a vida, há certezas que não posso comungar. Saramago afirma que: «para ser ateu é necessário ter uma alta religiosidade». Tem razão. O axioma de acreditar ou não em deus, são meta-certezas e verdades adquiridas por cada uma das doutrinas, que prefiro não perfilar. Estou intelectualmente limitado para ter certezas.
Porém, estas afirmações serão sempre um ponto de vista, uma opinião, uma confissão, um conjunto de palavras de um ficcionista sobre uma obra de ficção, pouco mais. A incomodada Igreja não as aceita. Claro que não, para além de ser uma «protectora terrena» da discutida obra é, também, a principal promotora da "propaganda" lá embutida. Criticar um dos seus veículos literários de transmissão de como pensar ou viver é restringir a sua própria existência. É algo «contra-natura» a Igreja criticar-se ou criticar aquilo que a sustenta. Sendo assim, a Igreja veio repudiar publicamente as afirmações de Saramago. Mas isto é uma reacção ao "mediatismo" que teve e que tem as afirmações. Nas declarações da Igreja à imprensa, estas são dominadas por expressões que refutem os ditames do homem sobre a Bíblia, a Igreja, a religião e não à obra dele ("Caim") apresentada naquele momento.
Pode-se, então, concluir que a origem da reacção eclesiástica e dos crentes não é a opinião, o contraditório, a imposição da verdade bíblica mas, sim, o efeito mundano que poderá ter estas afirmações de Saramago, ou seja, a difusão das críticas aos "maus-costumes" imprimidos na bíblia e a possibilidade de um religioso as aceitar e, valha-nos deus, as confrontar com a Igreja e com os crentes.
“Levar um livro no bolso ou na mochila, particularmente em alturas de tristeza, é estar em posse de um outro mundo, um mundo que pode trazer-nos felicidade.”
Terminei recentemente de ler este livro do Umberto Eco - "A Passo de Caranguejo". Penso que não é necessário fazer apresentações do autor, que para além de grande escritor é um grande pensador.
Mas página após página, o autor aborda temas como: Política, guerras, terrorismo, economia, racismo/xenofobia, religião, sociedade... de uma forma muito inteligente e dotada de um sentido de humor e de escrita incisivos. Por isso, para quem se interessa por estes temas actuais e de premente resolução, aconselho a leitura desta obra. «I am not a Labor Leader; I do not want you to follow me or anyone else; if you are looking for a Moses to lead you out of this capitalist wilderness, you will stay right where you are. I would not lead you into the promised land if I could, because if I led you in, some one else would lead you out. You must use your heads as well as your hands, and get yourself out of your present condition.»
...nada como ler este senhor (aposto que repudia que eu ou alguém o intitule como senhor, provavelmente a sua característica libertária não o permita tolerar tal devaneio coercivo e subjugador) para depois sermos guiados pelo ideal da suprema liberdade e aderirmos à mais radical e primitiva solução para esta crise -seja ela qual for.
Ontem maravilhei-me com a repetição do Documentário "Um Dia de Noite", sobre o indomável Luiz Pacheco, falecido no Sábado, dia cinco de Janeiro de 2008. Com passagens imperdiveis sobre episódios da sui generis vida, deslumbrei-me com a forma de estar, falar e maldizer deste ilustre "Sacristão do Surrealismo". Este Senhor abalou a esfera da literatura. Pulverizou os "cânones" do modus vivendi desde tempo da sua juventude até aos dias que correm. Imperdível, deu-me fome de o ler.
Christopher Hitchens - Letters to a Young Contrarian
Friederich Nietzsche - Der Antichrist
Erasmo de Roterdão- Elogia da Loucura